Relato de uma oficina de cibersegurança feminista do coletivo Lampejo na SOS Corpo, em Recife: data centers, violência de gênero digital, criptografia e defesa digital.
Em setembro participei de uma oficina de cibersegurança na SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, organização feminista fundada no início dos anos 1980 em Recife, que atua na luta por direitos reprodutivos, enfrentamento à violência contra a mulher e democratização da vida social. A atividade foi conduzida pelo coletivo Lampejo, e saí de lá com uma visão bem diferente do que costumo ter sobre segurança digital no dia a dia de desenvolvedor.
O Lampejo se define como um "lampejo transfeminista para iluminar estratégias, promover conexões e imaginar outros futuros" — uma articulação de organizações que leva educação em tecnologia sob uma perspectiva de gênero e antirracista. Entre os parceiros estão a Coding Rights, que atua desde 2015 "hackeando o patriarcado" em temas como colonialismo digital e vigilância, e a Maria D'Ajuda, a primeira linha de ajuda de segurança digital criada por feministas no Brasil. O Lampejo realiza oficinas presenciais de seis horas em mais de dez cidades brasileiras, gratuitas para organizações elegíveis, com foco especial em enfrentar a violência política de gênero no contexto das eleições de 2026.
Uma parte da oficina tratou de data centers e Big Techs — não como infraestrutura abstrata, mas como concentração de poder: quem controla onde os dados moram, controla também quem tem acesso a eles e sob quais regras. Como desenvolvedor acostumado a escolher provedores de nuvem só pensando em preço e performance, foi um lembrete de que infraestrutura é também uma decisão política, especialmente quando o sistema lida com dados de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Pra quem quer visualizar isso de forma concreta, vale consultar o projeto Cartografias da Internet, desenvolvido pela própria Coding Rights em parceria com a Rede Transfeminista de Cuidado Digital, com apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil. É um mapa que trata a internet como estrutura física e geolocalizada — cabos submarinos, satélites, servidores, mineração dos minerais usados em hardware, lixo eletrônico e sistemas algorítmicos — pra tornar visíveis as relações de poder, o colonialismo digital e a desigualdade de conectividade escondidas atrás da metáfora da "nuvem". Como o próprio projeto resume, "a internet é um território em disputa que afeta os futuros das nossas democracias". O material é tratado como um documento vivo, pensado pra apoiar oficinas e rodas de conversa como a que participei, com versão pra download em português disponível no próprio site.
A discussão sobre violência de gênero digital, transfobia e misoginia online foi o eixo mais forte do encontro. Não foram tratadas como casos isolados de "mau comportamento" na internet, mas como padrões coordenados de ataque — campanhas de assédio, exposição não consentida, perseguição e silenciamento, muitas vezes amplificadas pelos próprios mecanismos de engajamento das plataformas. Entender esse padrão muda completamente como se pensa em moderação, privacidade e design de produto.
A metodologia de segurança apresentada também fugiu do script técnico convencional. Em vez de partir só de firewalls e senhas fortes, o Lampejo trabalha o conceito de "cuidado digital": segurança não como ausência total de risco, mas como construção de autonomia, bem-estar emocional e rede de apoio diante de um ataque. É uma perspectiva que normalmente não aparece em treinamentos corporativos de segurança da informação, focados quase sempre só no aspecto técnico.
As reflexões sobre ferramentas de mensageria e criptografia trouxeram um ponto prático importante: nenhuma ferramenta é segura "por padrão" pra todo mundo — a escolha depende de quem está usando, contra qual tipo de ameaça, e com que nível de exposição. Criptografia de ponta a ponta reduz riscos de interceptação, mas não protege contra um dispositivo comprometido ou contra a pessoa que tem acesso físico ao celular de alguém. Segurança real exige pensar no conjunto, não só na ferramenta.
Sobre vulnerabilidades e o que fazer diante de um ataque virtual, a orientação central foi agir rápido e buscar ajuda especializada — e aqui a Maria D'Ajuda foi citada como recurso concreto: uma linha de atendimento gratuita e segura, com metodologia de escuta ativa, voltada a mulheres, pessoas não-binárias e comunidades LGBTQIAP+ em toda a América Latina, pra casos como conta invadida, ataques de ódio coordenados ou infraestrutura de organização sob ataque.
A parte sobre como identificar golpes foi bem prática: reconhecer sinais de phishing, perfis falsos se passando por pessoas conhecidas, urgência artificial como tática de manipulação, e pedidos de dados sensíveis fora de canais oficiais. Nada tecnicamente complexo, mas que exige o hábito de desconfiar por padrão — um hábito que, puxando pro lado profissional, também deveria estar presente em como a gente desenha fluxos de autenticação e recuperação de conta.
Saio desse tipo de oficina com uma certeza: segurança digital não é um problema só de infraestrutura, é também um problema de para quem a internet foi desenhada para ser segura. Quem constrói software tem responsabilidade direta nisso — desde decisões de onde hospedar dados até como um formulário de "esqueci minha senha" pode ser usado como vetor de ataque contra alguém. Levar essas perguntas pro código que escrevo no dia a dia é, pra mim, o maior aprendizado prático que trago desse encontro.